Uma Noite na Taverna

22 Abril 2012

Do calabouço




Há uma dúzia de metáforas lá fora
Aqui dentro não há nada sublime
Não há ritmos ou paisagens inspiradoras
Ou vontade de recriar a realidade
Recontar a história da humanidade
Apresentar seus mitos, uma prece,
Ou entoar uma canção.

As metáforas lá fora
E aqui dentro um cansaço
Um tédio com a marcha do mundo
Com a política e as escolhas de meu país.
Logo eu, que não acredito em fronteiras,
Quero agora sofrer com as escolhas dos outros?

Eu que não entendo nada
E ando cheio de opinião
Que sei das engrenagens sinistras da máquina do mundo
E ainda me assombro com sua música
Deixei aberta a caixa onde a esperança
Residia como um pássaro cativo

E, sem esperança, ó musa
Como sairei as ruas com a mesma empáfia
A desafiar a cretinice do planeta
Ignorando os falsos profetas e caretas?
O meu escudo da fé amassado
Vários cigarros ao lado do copo de cerveja.

Aqui dentro, uma pátria sem deus,
Onde as regras do mundo são piada,
Onde o sonho é a armadura
E a palavra é a espada,
Construí um castelo de argumentos
E me escondi sem lágrimas no calabouço

Mas há uma janela sem grades, há o tempo.
As metáforas não se foram, querem transformar
Esperam que eu ponha a cara lá fora, suba em palanques
E me embriague de poesia e vinho novamente
Por enquanto há somente o desabafo, a solidão
Palavras que se negam a tomar a forma de versos

Quando você voltar a sorrir ao meu lado, ó musa
e a esperança pousar em minha torre de idéias
Num outro dia, quando acabar o cansaço
Volto a crer que algumas palavras possam fazer a diferença
Volto a me embebedar de virtude
E a me importar mais com o mundo lá fora.

20 Março 2012

Paredes





O teu senso de emergência é justo e sensato
Mas quando o coração não obedece regras e tropeça
É o amor e não a razão que o pega no colo e o embala

Não quero ser deixado em silêncio enquanto faço versos
Quero escrevê-los na tua pele e ouvir-te reclamar das rimas pobres
Pois ofereço-te uma antologia e não lindo buquê de flores mortas

As pessoas vivas caminham pelo mundo e fazem juntos suas canções
De outra forma é o erro de esperar pelo outro
Há seres que voam e seres de pedra que vivem para sempre

Ela não percebe que as palavras podem colorir o dia
E que eu preciso dela de forma tão ilógica quanto um abraço
Mas percebe que a parede da sala está descascando

E eu que o dia irá permanecer cinzento

11 Março 2012

Paisagens Emocionais



O mundo exige direção e coordenadas
A vida, por vezes,
Um labirinto
Em que escolhas são tomadas
Como se o minotauro nos perseguisse
Não permite emoções
Que não estejam enlatadas
Com data de validade e selo do Inmetro

A poesia é um luxo a que me doô contente
Num mundo que
definitivamente
vai a lugares onde não quero ir

A poesia me transporta
para um lugar mais alto
E me deixa lá
Perdido nas paisagens emocionais
Eu me deixo pra lá
Em paisagens emocionais
e me encontro  

Na regra da rima



Pout Pouri Porrada

A religião é uma droga que não te deixa pensar baseada em mentiras que levam a nenhum lugar.
E enquanto você obedece,
a humanidade emburrece
e algum pastor enriquece,
consegue virar deputado.

A ignorância prevalece,
você não olha pro lado,
você não olha pra dentro e pega um Deus emprestado.

Você tem medo do inferno,
arranja um culpado pra tudo,
dizer que Jesus te ama não salvará este mundo.

Bate o tambor pra Iansã,
arranja um Deus melhorado,
olhe pra dentro de si,
você sabe o que é errado.

Deixe o seu Deus ser você e nunca algo inventado.

O que é certo lhe faz forte mas pode deixá-lo isolado.
Coração bate acelerado enquanto procuro saída,
quem sabe uma rima ou verdade que possam salvar minha vida.

A patologia mental de não querer tomar remédio,
sentir ódio,
tesão,
alegria,
amor,
compaixão,
tédio.

Patologia mental de fazer rima,
que é melhor do que cagar regra.

O mundo te dá porrada enquanto a fé se desintegra.

Mas você segue teimoso
como se fosse coeso,
como mártir de si mesmo,
como se carregasse um peso.

Prefiro passar os meus dias sem acreditar em mentiras,
não preciso de ideologias,
prisão aos hipócritas falsos Messias.

Renegado,
revoltado,
é disso que se é chamado

quando se opta pelo que é certo
e não pelo que é ensinado.

É tempo de paz, tempo de reflexão e parar de perder tempo em frente a televisão.
É tempo de razão, tempo de labuta,
botar idéias em prática e prosseguir na luta.
É tempo de não perder mais tempo, não perder mais.
É tempo de olhar pra frente e de seguir adiante.
É tempo de ganhar tempo, sabendo o que ficou pra trás,
ignorando a mentira constante que contavam a nossos pais.
É tempo de não perder mais tempo,
tempo de não perder mais.

Agradeço aos amigos que me têm estima,
sofro muito com minhas regras,
me liberto com minha rima.

20 Janeiro 2012

Honestamente




Grandeza não é grandiosidade, 
pobreza não é humildade,
certeza não é razão,

vaidade não é virtude,
dinheiro não é saúde, 
honestidade não é opção.

20 Novembro 2011

Sobre guardanapos



Aos jovens poetas um conselho:
Escarrem a verdade sobre os guardanapos
Encham de sangue e porra esse lirismo
Não façam poesia em frente ao espelho

30 Outubro 2011

A superação da mágoa





Eu não sei por que decepções você já passou.
Eu passo por várias
A todo instante.

Não sei bem se a freqüência das vezes com que a gente se decepciona diz algo sobre nossa inteligência.
Mas sei que fortemente nos faz acreditar que nós é que somos tolos.

Somos tolos encantados por uma esperança de redenção
Algo puro que o universo dá a quem trabalha a sua consciência de vida
Algo que não caiu do céu embora sagrado
Está escrito na alma de todo ser humano
E não nos manuais religiosos da culpa e do medo em sermos livres

Confiamos demais em nossas visões de mundo
E achamos que não há tons de cinza para o que é certo e verdadeiro.
Apenas, porque mentimos e erramos
mas nos arrependemos e sentimos remorsos,
Nos dói saber que não somos perfeitos para com os outros.

E a pior decepção é
perceber que nem todos são como nós.

Mas todos nós passamos por decepções
E há as que querem criar raízes em nosso coração
E tornar-se mágoa.

Quem se decepciona com o mundo por querer colocá-lo do jeito que ele deve ser
Vai nadar num rio caudaloso de ira e rancor
E se afogar no redemoinho cruel do ódio

Para ir em frente e superar a mágoa
Precisamos enxergar as cores do mundo
Nada é preto e branco.

Deixe que as pessoas sejam como são
E permaneça puro

Pois a pior decepção seria
A de admitir que foi você que se rendeu.

20 Outubro 2011

A quem venderei minha alma?




A quem venderei minha alma ?


Canto I

E não foi então que me vi afastado da vida real
E chorei copiosamente por me saber um completo idiota
E vi que o inferno habita na dúvida e não no erro

Como o que acorda com um tapa na cara
Sentindo-me ainda tonto do que houvera
Retirei da fronte a grinalda de hera e segui em frente.
A selva densa era um mar de gente e treva

Eu queria me encontrar com o DIABO!

E, sem Virgílio, Drummond ou Pessoa
Atravessei os portões da agonia
Sem querer mais a santidade dos passos de outrora
Mas o segredo da heresia
Abraçado a poesia
a mesma literatura que me deixou doente.

Canto II

Antes que me peguem pelo braço explico
Que esta vida real que ainda me foge ao entendimento
Palco de guerra, desejos e pecados capitais
É, para vocês que não sabem o que é viver o sonho,
O mundo.
O mundo que vos cerca
Ensinado por suas famílias
Nos catecismos e terreiros
Nas trincheiras
No trabalho tautométrico e
Que lhes foi mal ensinado nos livros didáticos
Ou invade a sala pelos telejornais
Na teledramaturgia do merchandise
E em documentários inteligentes do History Channel.

Tolos, todos vós que pensais, que este mundo é o inferno.

Canto III

Esse mundo de enganos da vida real
A vocês, que não sabem o que é viver o sonho,
Pode parecer injusto, cruel e ingrato.
Mas, para sua tristeza final o que é certo
E é fato
É que este mundo cruel
Injusto
Guloso
Avaro
E preguiçoso
É apenas o nosso retrato.
Apenas o nosso retrato

Canto IV

Ah! Mas por quê me embrenhei desperto em meio a treva?
O que quero eu com esse blá blá blá

Eu quero é me encontrar com o DIABO
E vender-lhe, pessoalmente a minha triste alma
A troco de nada além do esquecimento.

O vigário pediu minha alma
E quis me dar salvação
O pastor cobrou mais caro

O pai de santo prometeu um acordo
O meu patrão um abono
A minha mãe apenas pediu pra que eu fosse bom

O garoto do sinal me pediu um real
A platéia pede que você sorria (ou morra)
O que for mais divertido

Os invejosos querem meu sangue
As putas me pedem dinheiro
E vocês, talvez, apenas um bom poema

A felicidade, cenoura pendurada em frente ao burro,
Me trouxe sangrando até aqui

O amor talvez me pedisse menos se me amasse

Canto V

Vocês ainda se perguntam o que é o inferno?
O inferno é o passado
O não esquecimento

O purgatório é o seu presente
E a cenoura, seu futuro.

DIABO! DIABO!
Apenas em troca do esquecimento.
Pois sinto remorsos e ainda tenho esperanças
Ainda me decepciono com o ser humano
E vivo no sonho
Adoecido pela literatura

A quem venderei minha alma?
Procuro quem faça bom proveito dela.

Talvez nem ao DIABO ela interesse
Pois sou cheio de Ira, orgulho e vaidade.
E não há como não ser mastigado pela mandíbula maldita de Belzebu

Você quer comprar minha alma?
Pra fazer o quê?

Comprem, por favor!
Ela não vale mesmo nada
Ela vaza em letras empilhadas em versos

Talvez façam melhor uso dela
Do que eu.

26 Setembro 2011

Soneto da Saudade




Reclama, amor, de toda ausência minha
Que meu peito se encarrega do castigo.
Tendo ciência de que não estás comigo
É minha alma que parece estar sozinha.

Acostumei-me mal ao teu bem querer
E agora, amor, te quero sempre perto
Embora seja certo que me agrade
Saber que mal também te faz a falta

Acostumei-me mal e, apaixonado,
Vejo o relógio me olhar desconfiado
Horas sem ti transformam-se em trator.

Ah! Saudade, sentimento estranho
Que nos mostra a beleza e o tamanho
Da falta que nos faz o nosso amor.

23 Setembro 2011

BIG BANG LOVE

Meu coração é espesso
Denso
E por tua causa ele brilha

Meu ego colapsa
Desapareço
Não me encontro mais em mim

Só me reconheço no mundo
No reflexo de tua íris
Ouvindo as tuas palavras de apreço

O teu amor é o milagre cósmico
Que me arrancou da escuridão d'alma
E me lançou como um quasar na realidade

O teu carinho é a felicidade
O teu olhar
Horizonte de eventos


20 Setembro 2011

A Dança



Eu lhe peço a dança
Você me balança
Nosso mundo gira
E ninguém se cansa

Você faz o passo
O amor atravessa
Eu não tenho pressa
E ninguém se cansa

Minha mente brilha
Risos de criança
Você compartilha
E ninguém se cansa

O corpo se entrega
Alma então flutua
Dançam os amantes
Sob a luz da lua

Envoltos no abraço
Chuva como orquestra
Seu toque sequestra
Você diz: "Sou sua."

E dá-se novo passo
Coração em festa
Nessa brincadeira
Em que ninguém descansa

Seguimos bailando
Nossa própria música
Pela vida inteira
E ninguém se cansa

18 Setembro 2011

Sorrisos na Sarjeta





A cidade não acorda... Este tempo não acorda... 
Não gosto quando falam dos problemas deste tempo como se houvesse um glorioso passado
Assassinado como Cronos pelo zeitgeist de uma geração acéfala
O sorriso cariado deste presente é fruto do descuido das gerações passadas
Descuido com a verdade sobre o que é estar no mundo e no olhar sobre nossas escolhas


Mas é um tempo bom e cheio de possibilidades 
que ainda choca os hipócritas que se negam a admitir
o recente fim da escravidão negra e o racismo 
a cocaína vendida em farmácias, o aborto entre silvícolas
ou o homossexualismo na Grécia Antiga
E tratam a exposição destas questões como se fossem inéditas
Como se o passado e o presente não fossem um constante processo de transformação
A barriga da menina de nariz escorrendo pedindo um real pra comprar crack
Enquanto o moleque faz malabares no engarrafamento lotado de últimos lançamentos
Dá pistas do que irá morrer para as gerações vindouras:
Nossa dúvida sobre se estamos no caminho certo
Nosso senso de responsabilidade
O futuro.


Perdido em algum meio fio, junto à guimba de cigarro amassada, 
eu deixei o meu sorriso ao vê-la, sonâmbula,
iludida,
jogar sua vida nas mãos de políticos boiadeiros, religiosos milionários, intelectuais pequeno burgueses e pseudo artistas
tangendo pessoas como gado em direção ao abate.

Estou cansado de Messias, homens perfeitos porque mentem com método e nunca se arrependem.

Cansei de sorrisos falsos e cascas vazias.
Cansei da diplomacia.
Cansei da velhice caquética e seu falso passado.
Cansei do maniqueísmo, dos suburbanos soberbos com seus bairrismos.
Como mudar o rumo dessa cidade nestes tempos?
Como lançar ventos nessa Nau dos tempos?


(Porque a hora é now, you know
Eu só não tenho know how)


Um nó, um grito. Serei mártir ao tocar berrante pra mudar esse destino?

Há um nó na garganta que não se desata.

Abandono a sala no meio de algum reality-show-sadomasoquista e vou em direção a sarjeta pra procurar aquele cigarro.
Não há como encontrar o sorriso perdido nessa cidade... nesse tempo.








Tempos Felizes
Henrique Santos




Nunca vivemos tempos tão felizes
Nunca vivemos tempos tão bons


Podemos escolher a grossura da chibata
Ou discutir o peso de nossos grilhões
com nossos patrões
Podemos transformar nossos amigos em escravos
Alimentar a alma apenas com ilusões


Vamos então à rua assassinar crianças
Apenas pra vendermos mais notícias nos jornais
É tempo em que podemos vender sonhos e esperanças
Em pleno horário nobre ou nos comerciais


Nunca vivemos tempos tão felizes
Nunca vivemos tempos tão legais

28 Agosto 2011

Poemas Menores - A Vida Presente



I

Não ligues amor para o que passou
A vida é presente e não mero acaso
Pacote fechado no meio do caminho em que sempre tropeçamos

Ocupados
Preocupados
com promessas desta e de outras vidas
com passados, culpas e feridas
Deixamos o presente de lado

Mas ele sempre estará lá
Bem embrulhado ou amassado
Esperando que você se surpreenda
Brinque sem medo
E cuide com mais zelo deste seu novo brinquedo

Você não quer abrir?


13 Julho 2011

As Luzes não se apagam na cidade



As luzes da cidade não se apagam

Em vão

rabisco nos muros recados a minha amada

Ela não sabe

ler a noite sem estrelas

de meu coração



As luzes da cidade me acendem

E parto

para os braços de um amor

Que finge não ler os versos que escrevi



Abandonei por vergonha o homem de ontem

E fingirei

Contente

que pareço

O Homem sem rosto do comercial de dentifrício



Ah! Como é difícil amar hoje em dia

Sem a máscara ignóbil do homem perfeito

Que não faz versos em muros à luz da lua



Onde estás Pagú, Leila Diniz?

Ondes estás Diana, Janis, Jimi, Billie, Rita?

As luzes não se apagam na cidade



Desviei de meu caminho

São pra vocês estes versos

Vou em busca de vocês!

05 Julho 2011

DESABAFO POR OUTROS MEIOS




Queria não desejar tanto o que quero.
Queria ser mais calmo e não compassivo.
Queria ouvir o canto dos anjos e não o das sereias
Meu navio não tem mastros fortes
E não tive habilidade para evitar tempestades e rochedos

Mas eu sigo, desabafando por outros meios.
Se sou ou não medíocre ao escrever poemas
Ou ao entoar melodias pra encher a vida
Não me venham encher o saco
Pois eu não quero que me peguem pelo braço

O meu pecado é não ter aberto os olhos
Eu sei que não quero abrir os olhos
E ver que o barco está fazendo água agora
Logo agora, no melhor momento que inventei,

O meu pecado é a ilusão de pureza
É ter inventado um catecismo para a vida
É me arrepender de ter quebrado as regras
E ter realmente me apaixonado

Porque eu sei que o amor exige coragem
E eu, vil e ridículo, não confio em ninguém
Que monstro deixei entrar em meu quarto, Psiquê?

Há os que não estão preparados para o amor
E sinto a frialdade do mar exigindo
O sacrifício do tolo navegante mais uma vez

Minhas próximas metáforas serão com o ar
Estou farto de ter paciência

No próximo amor que me falte o pára-quedas
E numa morte rápida cesse o erro

Lágrimas afogam-me muito lentamente